Nos últimos anos, cada vez mais empresas industriais começaram a explorar a sua entrada em programas de defesa.
Têm capacidades, experiência e, em muitos casos, produtos que poderiam enquadrar-se neste tipo de ambientes.
No entanto, a realidade é que muitas delas não conseguem avançar.
Algumas não ultrapassam as primeiras fases.
Outras participam pontualmente, mas não conseguem consolidar-se.
E muitas, simplesmente, ficam de fora sem uma explicação clara.
O mais relevante é que, na maioria dos casos, o problema não é técnico.
Não é o que fazes, é como consegues demonstrá-lo
Um dos principais fatores que determina a entrada em programas de defesa não é apenas a capacidade de desenvolver ou fabricar um produto.
É a capacidade de demonstrar, de forma estruturada e contínua, que tudo foi realizado em conformidade com os requisitos.
Isto implica poder responder, em qualquer momento, a perguntas como:
- Que requisitos foram definidos e como evoluíram?
- Que versões do design foram validadas?
- Que alterações foram realizadas e porquê?
- Qual é o impacto de cada modificação?
- Que evidências existem de que os requisitos foram cumpridos?
Quando uma organização não consegue responder a estas questões com clareza, perde competitividade de forma imediata.
A rastreabilidade não é um extra
Em muitos ambientes industriais, a rastreabilidade é gerida até certo ponto: versões de design, documentação, processos de qualidade.
Na defesa, a rastreabilidade é completa.
Abrange todo o ciclo de vida:
- desde a definição inicial dos requisitos,
- até ao design, validação e fabrico,
- incluindo qualquer alteração intermédia.
Não se trata apenas de guardar informação, mas de a poder relacionar e compreender no seu contexto.
Sem esta capacidade, é muito difícil cumprir os níveis de controlo exigidos por estes programas.
O controlo de alterações como ponto crítico
Outro dos aspetos onde mais empresas encontram dificuldades é a gestão de alterações.
Em ambientes civis, as alterações podem ser geridas com alguma flexibilidade.
Na defesa, cada alteração deve:
- estar justificada,
- ser avaliada em termos de impacto,
- ser aprovada de acordo com procedimentos definidos,
- estar corretamente documentada.
Quando este processo não está bem estruturado, surgem inconsistências que afetam diretamente a credibilidade da empresa.
A desconexão entre áreas
Um dos problemas mais habituais não é a falta de capacidades, mas a falta de ligação entre elas.
Engenharia, validação, qualidade e fabrico costumam trabalhar com:
- ferramentas diferentes,
- informação duplicada,
- processos não totalmente alinhados.
Isto gera:
- incoerências nos dados,
- perda de informação,
- dificuldade em manter uma visão única do produto.
Em programas de defesa, esta falta de integração transforma-se num risco.
Processos que funcionam… mas não escalam
Muitas empresas têm processos que funcionam corretamente no seu contexto atual.
Mas estes processos nem sempre estão preparados para:
- auditorias externas,
- ambientes altamente regulados,
- colaboração com múltiplos intervenientes,
- projetos de longa duração.
O resultado é que, embora internamente tudo funcione, externamente não cumpre o nível de exigência requerido.
Um problema de maturidade, não de capacidade
Quando se analisam estes fatores em conjunto, a conclusão é clara.
As empresas não ficam de fora por falta de conhecimento técnico.
Ficam de fora por não atingirem o nível de maturidade exigido por este tipo de programas.
Maturidade em:
- processos,
- gestão da informação,
- controlo,
- coordenação.
Este é o verdadeiro filtro de entrada.
Compreender o gap é o primeiro passo
Muitas organizações identificam a oportunidade na defesa, mas nem sempre têm visibilidade sobre o gap existente entre a sua situação atual e aquilo que realmente é exigido.
Sem esse diagnóstico, é difícil avançar de forma estruturada.
E é aí que muitas iniciativas ficam a meio caminho.
No próximo artigo será abordado o que os programas de defesa realmente exigem ao nível dos processos, da organização e da forma de trabalhar, para além das capacidades técnicas.
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