Nos últimos meses, o conceito de tecnologias duais ganhou protagonismo nos planos industriais, nas iniciativas europeias e nos programas de investimento em defesa.
Tudo aponta na mesma direção: a indústria civil tem uma oportunidade real de participar em programas de defesa.
E é verdade.
Muitas empresas industriais — especialmente em setores como automóvel, maquinaria ou bens de equipamento — já dispõem de capacidades que se enquadram naturalmente neste contexto:
- Fabrico avançado
- Materiais leves
- Integração de sistemas
- Eletrónica e software
No papel, o enquadramento é evidente.
No entanto, esta oportunidade não é tão direta como parece.
A oportunidade existe… mas não é automática
Um dos erros mais comuns é assumir que dispor de capacidades técnicas é suficiente para aceder a este tipo de programas.
Não é.
Em ambientes de defesa, o critério não se limita ao que uma empresa é capaz de fazer, mas sim à forma como é capaz de o fazer.
E é aí que surgem as principais barreiras.
De trabalhar bem a trabalhar sob requisitos
Muitas empresas industriais já operam com elevados níveis de exigência nos seus setores.
Mas na defesa, o nível de controlo e rigor é significativamente maior.
Não basta conceber, fabricar ou validar um produto.
É necessário:
- Demonstrar cada decisão tomada
- Justificar cada alteração realizada
- Garantir a rastreabilidade completa
- Cumprir normas específicas
- Gerir requisitos que evoluem de forma constante
Este nível de exigência não é um complemento. É a base sobre a qual se constroem os programas de defesa.
O desafio não é técnico, é operacional
Na prática, muitas empresas que tentam aceder a este tipo de projetos não encontram dificuldades no plano técnico.
As limitações surgem noutras áreas:
- Controlo insuficiente de versões e configurações
- Processos pouco estruturados para gerir requisitos
- Desconexão entre engenharia, validação e fabrico
- Falta de rastreabilidade ao longo do ciclo de vida
- Pouca experiência em ambientes regulados
Estas lacunas têm um impacto direto.
Empresas com um elevado nível técnico ficam fora de programas de defesa sem uma causa evidente, simplesmente porque não cumprem a forma de trabalhar que estes ambientes exigem.
Tecnologias duais vs. engenharia dual
Neste contexto, convém diferenciar dois conceitos que muitas vezes são utilizados de forma indistinta.
As tecnologias duais referem-se a produtos ou capacidades que podem ser aplicados tanto em ambientes civis como em defesa.
A engenharia dual, por outro lado, está relacionada com a forma como esses produtos são desenvolvidos, validados e geridos sob requisitos muito mais exigentes.
A oportunidade está nas capacidades tecnológicas.
O verdadeiro desafio está na forma de trabalhar.
Uma oportunidade que exige evolução
Aceder a programas de defesa não implica apenas abrir uma nova linha de negócio.
Implica adaptar processos, reforçar o controlo sobre a informação e evoluir a forma como os produtos são desenvolvidos e validados.
Por este motivo, muitas empresas encontram-se num ponto intermédio: identificam claramente a oportunidade, mas não têm visibilidade sobre o que realmente implica abordá-la.
Esse é, precisamente, o ponto de partida.
Nos próximos artigos serão abordados os erros mais comuns que as empresas cometem ao tentar entrar em programas de defesa, o que estes ambientes realmente exigem e como muda a forma de trabalhar quando se opera sob este nível de exigência.
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