O interesse em aceder a programas de defesa está a crescer em toda a indústria.
A oportunidade é evidente: investimento, novos programas, necessidade de ampliar a base de fornecedores… Tudo indica que cada vez mais empresas civis poderão participar neste tipo de ambientes.
No entanto, há um padrão que se repete com frequência.
Empresas com capacidades técnicas sólidas, experiência industrial e produtos competitivos não conseguem avançar neste caminho.
E, em muitos casos, a razão é a mesma.
O erro mais comum: assumir que já estão preparadas
O primeiro erro que muitas empresas cometem ao considerar a sua entrada na defesa é simples:
Assumir que, se já concebem e fabricam produtos complexos em ambientes exigentes, estão preparadas para dar o salto.
Visto de fora, é uma conclusão lógica.
Se uma empresa trabalha para setores como a indústria automóvel, a aeronáutica civil ou a maquinaria avançada, já está habituada a elevados padrões de qualidade, prazos exigentes e ambientes competitivos.
Mas a defesa não é uma extensão natural destes setores.
É um ambiente com regras próprias.
Não é uma questão de capacidade, mas de contexto
Na defesa, o nível de exigência não é medido apenas pela complexidade do produto, mas também pelo contexto em que este é desenvolvido.
Isto implica trabalhar sob:
- requisitos definidos desde fases muito iniciais,
- processos altamente estruturados,
- ambientes regulados e auditáveis,
- ciclos de vida longos e controlados,
- múltiplos intervenientes coordenados na mesma cadeia de valor.
Neste cenário, o importante não é apenas executar corretamente, mas fazê-lo dentro de um enquadramento que permita garantir, justificar e auditar cada passo.
Quando a forma de trabalhar se transforma numa barreira
É aqui que muitas empresas encontram as primeiras dificuldades.
Não porque não saibam conceber ou fabricar, mas porque a sua forma de trabalhar não está preparada para este tipo de exigências.
Alguns exemplos habituais:
- gestão de requisitos pouco formalizada,
- alterações de design sem um controlo completo do impacto,
- informação distribuída por múltiplas ferramentas ou equipas,
- dificuldades em garantir a coerência entre áreas,
- processos que funcionam bem internamente, mas que não estão preparados para ser auditados.
Em ambientes civis, estes aspetos podem ser geríveis.
Na defesa, são determinantes.
De fornecedor industrial a participante em programas complexos
Outra mudança relevante tem a ver com o papel da empresa dentro da cadeia de valor.
Em muitos setores civis, as empresas operam como fornecedores especializados, com um âmbito bem definido.
Na defesa, a participação costuma implicar:
- maior integração com outros intervenientes,
- dependência de sistemas mais amplos,
- necessidade de alinhamento com normas comuns,
- coordenação contínua com clientes, parceiros e organismos.
Isto exige uma maturidade organizacional diferente.
Não se trata apenas de executar bem uma parte, mas de encaixar dentro de um sistema muito mais amplo e controlado.
O salto não é técnico, é operacional
Por tudo isto, a passagem da indústria civil para a defesa não deve ser encarada como um desafio tecnológico.
É, acima de tudo, uma mudança na forma de trabalhar.
Implica rever:
- como são geridos os requisitos,
- como são controladas as alterações,
- como é validada cada fase,
- como é garantida a rastreabilidade,
- como são coordenadas as equipas.
Sem esta base, as capacidades técnicas perdem valor neste tipo de ambientes.
Compreender o ponto de partida
Muitas empresas estão hoje nesse ponto inicial:
Têm capacidades, veem a oportunidade e querem explorá-la.
Mas ainda não avaliaram em profundidade o que implica realmente adaptar-se a este tipo de programas.
E é precisamente aí que surge o primeiro desalinhamento entre expectativa e realidade.
No próximo artigo será abordado porque é que muitas empresas, mesmo depois de darem os primeiros passos, não conseguem avançar e acabam por ficar de fora dos programas de defesa.
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